Maravilhosa vitória dos moradores da Ilha do Corvo contra dez poderosas naus de Turcos

“Relação breve e mui verdadeira da grande e maravilhosa vitória que Deus Nossos Senhor foi servido dar aos moradores da ilha do Corvo contra dez poderosas naus de turcos que a ela foram para a roubar e cativar Como os moradores das ilhas, que esta Coroa possui no Mar Oceano, sejam de continuo molestados dos muitos e vários piratas e corsários que ali com suas naus e armadas vêm esperar as presas e navios que ordinariamente vêm, das partes do sul e de outras, demandar as ilhas, vivem como em ũa fronteira de enemigos. Maiormente receosos dos mouros e turcos que, não satisfeitos com as fazendas1, tratam de cativar as pessoas, como já sucedeu há poucos anos (por nossos pecados) no ilhéu do Porto Santo junto à ilha da Madeira.

Está a ilha do Corvo em altura de corenta graus e ao norte da ilha das Flores. Distância2 de ũa légua e toda ela de pouco mais de estreito, mas com bom porto, que está à banda de leste, adonde podem ancorar grandes naus. Se bem por tão piquena é pobre e há nela poucos moradores.

Sucedeu, pois que aos vinte e três do mês de Junho desta presente era de mil seiscentos e trinta e dous anos, véspera do glorioso precursor de Cristo, São João Baptista, chegaram a ela dez naus de turcos, grandes e mui poderosas. E lançando dali com muita brevidade dez lanchas tão grandes que mais pareciam caravela que lanchas, carregadas de destros e atrevidos turcos, que, sem número nem receo, vinham roubar a ilha, levando dela todos os moradores. O que lhes fora bem fácil se Deus, que costuma exaltar os humildes, não derrubara a soberba destes bárbaros otomanos por intercessão da Virgem Sua Mãe Santíssima. Porque saindo eles, repartidas as lanchas em cinco partes, de duas em duas, e saltando todos à ũa em terra, com bárbaras algazarras e costumadas alaridas (como já senhores da terra) caminhavam a roubá-la.

Quando se lhe opuseram cincoenta homens, que na ilha havia capazes pera tomar as armas que com valeroso esforço que sói3 ministrar a última deliberação e dar o desejo de vida e liberdade. Começaram ũa bem desigual e perigosa batalha que os da ilha das Flores a estavam vendo, por ter começado no crespúsculo da manhã, julgavam, por sem dúvida dos tiros e fogos que viam, que não somente seriam cativos os míseros moradores, mas a ilha de todo abrasada e destruída.

Mas com tão alentado esforço peleijaram estes cincoenta homens, sendo os mais deles rústicos lavradores, destros mais no manejo das aguilhadas que na milícia e disciplina de Marte. Porém, sem mais capitão nem ordenança que a natural defensa e o auxílio e favor do céu, que a vozes impetravam4, mataram muito grande número dos enemigos, que os outros lançavam ao mar ou metiam nas lanchas por não vir à notícia dos nossos o grande estrago e destroço que lhe fizeram. Com o que não foi possível saber-se número certo dos mortos e feridos que, no discurso5 de largas onze horas que a batalha durou, lhe mataram e feriram.

O que vendo os turcos, que nas naus estavam, e a grande resistência dos cristãos e o muito dano que os seus soldados recebiam, mandaram em socorro mais dous patachos com muita gente: os mais alentados e luzidos6 de todos, que chegaram quase a tocar pedra. E vendo o grande esforço dos seus e o pouco número dos portugueses, admirados e raivosos, como cães famélicos, se lançaram em quatro lanchas grande cantidade e cobiçosos de vingança com ânimo de tomarem os nossos. Como pelas costas em meio se foram lançar e tomar terra em um portinho que está defronte de ũa igreja de Nossa Senhora do Rosairo, padroeira daquela ilha. E estavam (como já prevenidos do que podia ser) de guarda deste porto, aonde chegaram as quatro lanchas, cinco mancebos, que o pouco número de todos não dava lugar a maior esquadrão, e estes começando a se defender da soberba e horrenda fúria dos bárbaros, e terríveis e deliberados, saltaram em terra.

Acudiram ao grande estrondo outros moços pastores cujas armas de uns e outros se encerravam em7 tirar pedras e cuja destreza era somente esperar, de rosto a rosto, os enemigos valentes e armados com mosquetes, alfanges e outras armas e a cujos ardis se continham em lançar grandes perdas a que comumente chamam galgas. E ultimamente se portaram com tanto esforço e força (cousa raras vezes vista) que sem receo se lançavam na fúria do perigo e no meio dos enemigos com notável risco das vidas. Cerrando com8 eles, às mãos mataram muitos e feriram grande cantidade, sendo muito maior a dos inimigos destros e esforçados e muito pequena a dos cristãos.

Ignorantes e inermes9, e na fúria deste perigo e aperto, chegaram, com a ligeireza possível, os pais de alguns destes moços. Com a vinda dos quais se duplicou de forte o estrondo e batalha, que parecia que a ilha se fundia e abrasava. O que por sem dúvida julgavam os da ilha das Flores, que viam a batalha, e pelo menos não escapar nenhum dos míseros moradores, de mortos ou cativos.

Cousa, certo miraculosa, que não somente não foram mortos nem cativos, mas ainda houve algum que ficasse ferido, sendo que os pilouros dos mosquetes não erravam o tiro e todos davam em várias partes destes ditosos combatentes e valerosos portugueses. E assim se tem por cousa infalível e averiguada ver-se a Virgem, gloriosa rainha dos anjos, em defensa destes cristãos. Porque o são muito de veras e humildes moradores e devotos da Virgem, Senhora nossa e patrona sua. Cuja verdade verifica o efeito desta guerra, porque muitos pilouros chegaram a queimar os vestidos dos cristãos em várias partes sem fazerem outro dano nem mais ofensa. Um pilouro deu a um destes defensores na ponta do nariz sem fazer mais dano que deixar, o pilouro, o sinal feito da ferrugem da pólvora sem outra lesão. E outro passou a carapuça a outro moço que tinha na cabeça, de parte a parte, sem mais outro dano. Obras do céu, defensa e maravilha da Virgem Mãe.

Esta carapuça mandou o ouvidor do eclesiástico Inácio Coelho à ilha do Faial, que dista do Corvo mais de trinta léguas, para evidência e prova do caso, que se tem por milagroso, por Marcos Rodrigues e seu irmão Domingos Rodrigues com uma relação e carta do sucesso que tem em seu poder o Capitão-Mor Francisco Gil da Silveira. Feita em vinte e sete de Junho passado, a qual veio trasladada a esta cidade e autêntica por Francisco Gomes Moreira, tabelião público e do judicial por sua Magestade, na ilha do Faial de onde se tirou fielmente as forças10 desta relação. Ultimamente, ficando quebradas alguas das lanchas e quebrantados os enemigos, o penedo, e praia e mar cheio de sangue e corpos mortos, os bárbaros se embarcaram, deixando ainda na praia oito turcos mortos que, com muita pressa, não puderam levar nem lançar ao mar e um vivo, bem que atordoado, que tornou a si daí a mais de três horas dos turcos idos. Achou-se mais muitas armas, vestidos turquescos e monições que tudo a pressa e medo lhes fez deixar e um susto11 de cordéis, que para atar os prisioneiros e cativos, traziam. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Mãe Santíssima ordenaram a sorte diferente de sua imaginação, a quem se dão as graças para glória Sua, salvação e defensa dos fiéis e confusão dos enemigos de nossa santa fé católica. Amen.

  1. bens
  2. comprimento
  3. costuma
  4. invocavam
  5. decurso
  6. vistosos
  7. se limitavam a
  8. investindo para
  9. desarmados
  10. o essencial
  11. grande quantidade”

Extraído do Livro “ Relação breve da grande e maravilhosa vitória dos moradores da ilha do Corvo contra dez poderosas naus de Turcos – ANNO MDCXXXII” – Editado pela Câmara Municipal do Corvo em 1993, com Apresentação e Notas de Carlos Guilherme Riley, e Transcrição e Actualização do Texto de João Saramago.